Muralhas


O improvável aconteceu. Aconteceu porque o impensável foi pensado; o inimaginável foi imaginado; o indizível foi dito e o irreal foi realizado. O impossível aconteceu. Não foi surpresa.

As pessoas constroem-se com o tempo, com a vida. A vida, por vezes, encarrega-se de destruir as muralhas que ela própria ajuda a erigir. Essa sorte, a de quando as muralhas se desmoronam, apenas está destinada aos atentos, aos lúcidos, aos conscientes, aos sábios e aos sabedores. Aos que estão dispostos a arriscar perder para ganhar. Esses são também loucos, inconscientes, mal interpretados e mal vistos. Tudo isto se passa diante dos olhos dos próprios. Só eles conseguem suportar tal ambiguidade, tal incoerência, tal loucura. Fá-lo-ão porque é essa a sua intenção: aguentar. Aguentarão porque querem descobrir o que outros não ousam ou nem conseguem conceber. Aos olhos dos outros é apenas loucura, desrespeito, inconsciência. Aos olhos dos outros não há qualquer tipo de contrapeso.

Para os dispostos a esse exercício, há que desafiar as convenções e, talvez, isso faça avançar a vida, erguendo novas muralhas, mais fortes ou mais frágeis que, apesar da sua grandeza ou pequeneza, correm tanto risco de cair como as outras cujas pedras se espalharam e não servem mais o propósito que as juntava. Servirão outros, certamente.

Podia terminar-se esta história dizendo que representa a história de todas as mulheres e de todos os homens. Não é. Para este que escreve e para cada uma e cada um que a lê, esta história é única, ir

repetível, incontável, a não ser em páginas em branco que ninguém vai ler. Como todas as outras, esta história não pode ser contada sem ter sido vivida. Só pode mesmo ser vivida.