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Assumpção da obviedade e outras coisas

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O Fred Kofman fala disto no livro Conscious Business, para que uma conversa seja eficaz, clara e produza resultados há que eliminar a assumpção daquilo que consideramos como óbvio.

Se não o fazemos porque acreditamos na inteligência dos outros, porque a queremos verificar, porque queremos tornar a nossa evidente, tornando-nos “misteriosos”, porque temos segundos interesses ou nos queremos proteger da hipótese dos outros os terem, não estaremos a conversar tão bem como podemos.

Ao conduzir, apesar de ser óbvio para nós que queremos virar à direita, por exemplo, ao não “fazer pisca” estamos a correr sérios riscos. Se numa conversa não tornarmos público aquilo que em privado, internamente, é óbvio, se não nos fizermos previsíveis, sem a conotação negativa da palavra, que riscos estaremos a correr? O que estaremos a perder e a ganhar?

Claro que estas dinâmicas são influenciadas pelo contexto, pela interpretação que dele fazemos, pelo(s) nosso(s) interlocutor(es) e, consequentemente, pelos juízos que construímos acerca deles e eles a nosso respeito.

A questão é que hoje existe a tendência para valorizar a intuição mais do que o conhecimento e a consciência de si próprio. Por exemplo, mais facilmente nos deixamos seduzir por uma ideia “brilhante” sem nos ocuparmos com o seu fundamento; esse trabalho para muitos tira brilho às ideias. Será a capacidade de nos mantermos enamorados pela fundamentação, pela ligação e contextualização das reflexões que fazemos que lhes dará corpulência.

Pelos vistos as ideias de Sócrates, o grego, não vingaram tanto como se julga. O conhecimento e a consciência não invalidam nem diminuem a intuição; porventura potencia-la-ão.

Papagaios…

Descobri recentemente, sem conseguir precisar a data, este blogue​ e desde então tenho lido atentamente todas as suas publicações.

A última - Contas de Cabeça - mais do que interesse, despertou-me a vontade de concordar publicamente com o que o autor escreveu. Estava a escrever um comentário na zona indicada mas decidi antes publicar o seguinte texto.

Não podia estar mais de acordo com o que é explorado. Apesar de, ao contrário do autor, ser muito pouco dado a números acredito a capacidade reflexiva de abstracção, de compreensão e associação são essenciais para a aquisição de uma densidade cultural tão em falta nas pessoas de hoje. O contacto com um mundo interno através da capacidade cognitiva, para os cartesianos, o lado racional, é essencial para uma boa integração dos afectos. Só a boa convivência destas duas dimensões permite contribuir para a construção do que chamo, e a expressão não é minha, de qualidade humana.

Na procura da simplificação (que é diferente de simplicidade, em si, um conceito extremamente complexo) de processos, da obtenção de resultado rápidos, de preferência tangíveis, e que servem interesses que não contemplam a complexidade humana apenas se encontram meias soluções, atribuir-lhes um valor de 50% talvez seja demais. 

É pena ver que as mudanças que estão a ser pensadas e executadas apenas servem para perpetuar e reforçar o paradigma que nos trouxe à difícil situação que vivemos enquanto espécie.

Os jogos que jogamos

Tenho o privilégio de trabalhar em áreas em que o valor que posso aportar é proporcionar o acesso a novas formas de ver, de agir e de ser. Através de perspectivas diferentes, mais conscientes, mais claras, que permitem observar e agir sobre a complexidade que são as pessoas e as relações que estabelecem entre si.

Não tem necessariamente a ver com o desenvolvimento de competências, pelo menos não directamente. Tampouco está relacionado com o treino. É mais na linha do que se observa, do que se sente e da forma como se (re)age.

Apela uma capacidade de “ver” para além do que é visível, ver não só com os olhos mas também com o corpo, com o afecto, com a razão. Com o uso, muitas vezes inconsciente, da nossa capacidade de interpretar os factos, da “realidade”.

Esta visão da realidade, mais integrada, mais completa, mais complexa, mais abrangente, permite uma reflexão, uma modalidade afectiva, uma forma de agir e reagir que é mais alinhada do ponto de vista ontológico e, ao mesmo tempo, mais adequada do ponto de vista relacional, social, institucional e profissional. Estes pontos de observação permitem uma análise mais completa daquilo que se passa no contexto. Arrisco mesmo dizer que se “vê mais”.

Permite maior clarividência em relação às nossas acções e reacções. Estas são mais fundamentadas porque as questionamos. Dessas perguntas resultam respostas que podem reforçar ou refutar a conduta que temos seguido, de forma mais ou menos consciente. Dão-nos um maior clareza no que diz respeito às intenções das nossas acções e reacções. Será essa consciência que permitirá a mudança, se ele for desejada, útil ou necessária.

Fico com a sensação que o que procuro transmitir fica pouco concreto. Utilizarei um exemplo que, à partida, poderá estar distante pretendo tornar claro.

Quando um atleta, de uma qualquer modalidade desportiva em que seja necessária a intervenção de um “juiz”, procura enganar o árbitro sabe que os factos que vai produzir não infringem as regras. A procura dessa vantagem depende da possibilidade de uma falha de interpretação, se é que tal coisa existe, pode dizer-se que tem uma interpretação diferente da esperada, por parte de quem tem o papel de manter o jogo dentro dos limites convencionados. Outra variante, que demonstra esta capacidade de interpretação, nota-se quando um jogador “lê” uma situação de jogo e se aproveita da mesma para dela tirar proveito para si e para a sua equipa.

Há jogadores que se tornam tão ou mais hábeis a jogar esse jogo, deixando muitas vezes para segundo plano a prática da modalidade desportiva a que se dedicam. Muitos deles têm até grande sucesso. De alguns diz-se até que “têm muita experiência”. Apesar disso, esse é, em si, um outro jogo, não tem de ser essa a única forma de jogar. Arrisco a arrogância de declarar que é muito mais bonito ver um jogador bem sucedido, jogar o seu jogo de forma leal, ética, aceitando a derrota e a vitória porque, em última instância, não é o resultado que interessa mais mas sim a forma como se joga o jogo. Aqueles que conseguem mais vitórias não deveriam ser, necessariamente os que mais jogos ganham. Se puderem juntar os dois tanto melhor.

A questão está na capacidade de decisão para saber qual o jogo que se quer jogar. Essa capacidade de escolha resulta do nível de consciência cognitiva, afectiva e das intenções de acção/reacção que raras vezes é adquirido espontaneamente. Tal reflexão serve não só para os atletas. Serve para os economistas e gestores, para os políticos, para os pais e mães, para cada um de nós.

Especialmente no fase em que vivemos hoje no mundo, mais a pergunta que deixo em seguida me faz sentido perguntar:

  • É o resultado ou a forma como se se joga o “jogo” que é mais importante?

Sei que para muitos a resposta será fácil. Estarão plenamente conscientes do que estão a responder? Quais as implicações da sua resposta? Para si e para os outros? A que pergunta está realmente a responder?

Muito há a ainda dizer sobre este assunto. Como antevejo muitas ramificações, que nos levariam para lá do que é “razoável” colocar num post de um blogue fico-me por aqui. Contudo, não sem fazer referência a Fernando Pessoa (“Teoria e Prática do Comércio”). Afinal foi ele que fez despontar esta reflexão:

“Estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a vencer. Muitos deles contêm indicações interessantes, por vezes aproveitáveis. Quase todos se reportam particularmente ao êxito material, o que é explicável, pois é esse o que supremamente interessa a grande maioria dos homens. A ciência de vencer é, contudo, facílima de expor; em aplicá-la, ou não, é que está o segredo do êxito ou a explicação da falta dele. Para vencer - material ou imaterialmente - três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama sorte. Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho. Saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até o fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada. Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas também achá-las. Criar relações tem dois sentidos - um para a vida material, outro para a vida mental. Na vida material a expressão tem o seu sentido directo. Na vida mental significa criar cultura. A história não regista um grande triunfador material isolado, nem um grande triunfador mental inculto. Da simples “vontade” vivem só os pequenos comerciantes; da simples “inspiração” vivem só os pequenos poetas. A lei é uma para todos.”

Podia ter sido escrito hoje este texto…​