Verão

Sento-me num banco de um jardim de Lisboa enquanto espero a hora para que está marcada uma conversa a quatro. A cidade e eu cheiramos a Verão, altura do ano que pede grandes liberdades e chama por pequenas responsabilidades. 

A imparável passagem das estações tornou mais pequena a ilusão de ser livre e fez com que a realidade de se ser responsável se tornasse adulta. 

Contudo, há coisas que o tempo não muda em relação ao Verão. O Sol continua a pairar mais baixo, enquanto nos banha com o calor que obriga a mergulhar nas águas doces e salgadas. A pele continua a dourar-se, às vezes a queimar-se. Há pedras da areia que continuam teimosamente a colar-se aos pés e a lá ficar durante dias, tal como as lapas se agarram a uma rocha. O cheiro do mar mistura-se com o aroma que o Sol deixa nos corpos e na roupa. As noites longas convidam o sono a ficar sossegado durante mais tempo. O cabelo levanta-se empurrado pelo sal das águas, como se precisasse dos raios de Sol para se alimentar. 

A relação com a liberdade e com a responsabilidade mudou, mas a vontade de ser mais livre e menos responsável chegará sempre com o Verão.

A taberna no Fugas.

pedrofmateus:

Hoje a taberna saiu no “Fugas” do jornal “O Público”!!!

Com apenas 10 meses e meio de estar com o negócio em funcionamento, depois de muito trabalho, noites mal dormidas, cansaço acumulado, entre tantas outras coisas associadas a uma profissão no mundo da hotelaria, é um orgulho enorme ter…

A visitar e voltar…

A crise das bruxas e dos maus

o meu artigo de sábado no i 

A versão clássica dos maus da fita está em crise: já não existem maus, nem nas fitas nem em lado nenhum. Se alguém pega numa arma e assassina dezenas de pessoas numa universidade ou se um grupo de terroristas aniquila dezenas de civis, a tendência é justificar os crimes com o contexto. Porque a culpa, em primeira instância, nunca é dos autores. A culpa é quase sempre da sociedade, da globalização, dos capitalistas, do contexto familiar, dos filmes violentos, da pobreza, da liberalização da venda de armas, da religião, etc. O que prevalece nesta teoria é que as pessoas, de um modo geral, são estúpidas, coitadas, e a moral que têm ou não têm depende exclusivamente do contexto. Os maus são vítimas e, na verdade, somos todos bons selvagens, incluindo os terroristas, os assassinos, etc. Os maus são os contextos, e não os criminosos.

Esta febre de fazer tábua rasa do bem e do mal, dos maus e dos bons, à boa maneira dos filmes de cowboys e do super-homem, chegou aos contos infantis. E não, não se inventaram novos contos infantis, adulteraram-se os clássicos. Pegou-se no trabalho genial dos irmãos Grimm, de Andersen e de muitos outros que se esfalfaram a trabalhar e mudaram-se as histórias para as adaptar aos conceitos modernos e, por isso, correctos.

As histórias que foram escritas com o objectivo de traçar uma linha bem definida entre o bem e o mal, de ajudar a criar uma consciência moral, de despertar a sensibilidade das crianças, que conseguem ser mais cruéis do que qualquer bruxa má, de nos fazer chorar e de educar o nosso sentido de justiça, são hoje histórias sem heróis, sem moral e sem interesse. Hoje parte-se do princípio que as crianças, primeiro, são parvas e, segundo, que nascem sensíveis, com as doses certas de moral e com um sentimento de justiça muito apurado. Mas não é verdade, elas não nascem assim, e os clássicos infantis são obras-primas que nos ajudaram a todos a desenvolver tudo isto.

No novo filme da Disney da Bela Adormecida, a questão central é perceber porque é que a bruxa é má. E descobre-se que, afinal, a bruxa não é má: mau era o rei que lhe cortou as asas e ela, coitada, não teve alternativa senão lançar um cruel feitiço sobre a princesa para salvar o reino (enfim, é complicado…). Nesta história não há realmente maus, há contexto. E a moral da história é que tudo depende do contexto.

Também o clássico João e Maria que se conta hoje às crianças é outra história completamente diferente daquela que foi escrita. Afinal, os meninos perderam-se na floresta e não foi a madrasta e o pai que os abandonaram reiteradamente porque não tinham dinheiro para os sustentar. Nada disso. Afinal, foi por acaso que os meninos foram parar a casa da bruxa - perderam-se - e a bruxa também não caiu para dentro do forno empurrada pela heroína Maria, mas apenas ficou sem a vassoura. Aqui nem sequer há moral da história, há apenas aventura.

O que hoje se tenta passar às crianças é que o mal não existe, que os maus são bons e que qualquer coisa que mostre ou revele crueldade incita à violência. Com isto matam-se heróis e trituram- -se modelos de justiça, moral e coragem.

Até que as crianças crescem e, quando todos esperávamos que, com esta nova cultura infantil, todas elas se tornassem miniaturas da madre Teresa de Calcutá e que as guerras desaparecessem da fase da terra, eis que elas se tornaram uma geração que se está nas tintas para tudo isso. Aprenderam que há uma justificação plausível para tudo e principalmente para a maldade, por isso não há lados. A eterna luta do bem contra o mal e do final feliz é qualquer coisa que não lhes assiste. Os heróis, esses, são os futebolistas e a Miley Cyrus.

E o mais caricato de tudo isto é que os jogos de consola mais vendidos são os mais violentos, em que o protagonista principal é mesmo mau. Um mau eficaz, com estilo e impiedoso. Mas não faz mal, dizem, porque é tudo fantasia. O que faz mal é cantar aos nossos filhos o “Atirei o pau ao gato”, não vão eles, quando crescerem, adoptar como desporto nacional atirar paus aos gatos.