Ler cansa, mas é um bom cansaço

Deitado em cima de paletes de madeira, leio um livro de capa roxa, ou lilás, ou púrpura - tantas palavras para descrever uma mesma cor, não fosse eu homem conseguiria rápida e facilmente escolher uma palavra para descrever a luz que reflecte desta forma particular na capa deste livro - com um título que é um nome de uma cidade, escrito de forma brilhante. O que leio está tão bem escrito que sou levado para dentro da história; olho para as personagens como se aqui estivessem. Por estar tão bem escrito, de vez em quando, sou levado a desviar os olhos das páginas para ir ao encontro das ideias que me surgem sem que eu queira. Chateiam-me porque não quero sair do livro; maravilham-me porque são minhas mas não apenas minhas, são também do autor que sem querer as colocou aqui, em mim. Outras vezes a falta de atenção leva-me a olhar para o nada; aí vejo gaivotas que fogem do mar - parece que vem lá tempestade; oiço cães que ladram por razões que me escapam; noto o barulho dos motores de carros - cuja origem e destino dos seus ocupantes desconheço - que passam numa estrada que sei qual é. Sou interrompido pela chuva e abrigo-me entre paredes, onde recomeço o mesmo exercício, o mesmo movimento, de dentro para fora da história, de dentro para fora de mim, a prestar atenção a ideias de outro, a ideias minhas e a ruídos, que agora são outros. 

Ainda dizem que ler é uma actividade parada…

(Fonte: joaosevilhano.com)

Sobre escrever e não escrever


Houve um tempo em que não tinha vontade de escrever. Melhor, tinha vontade mas não o fazia, não sabia que a tinha. Não sabia, na altura, que essa seria uma forma de  libertar espaço para poder descobrir de novo. Seria falta de coragem? Talvez… Talvez fosse a falta de prazer que a escrita me trazia. Talvez fosse dificuldade em lidar com o sofrimento de ter as ideias claras pode implicar. As palavras amontoavam-se, amontoaram-se, guardando as perspectivas, os sentimentos, as ideias e as vivências. Não se perderam, essas palavras e outras coisas que não chegaram a ter nome. Viveram, cresceram e evoluíram para agora tingirem todas as outras que agora escrevo, com uma vontade e coragem novas mas que não são assim tão recentes.

Terá sido necessário não ter vontade e coragem de escrever para descobrir o prazer que sinto ao bater num teclado. Não, nunca fui de canetas nem de lápis. Os traços que desenho são demasiado feios e confusos para alguém poder sentir prazer ao procurar decifrá-los. Pelo contrário, sentiria frustração e, por isso, desprazer. Não se deve apenas à falta de jeito. Tampouco tem que ver com o sentido estético. Nunca aprendi a domar a velocidade das ideias e dos afectos a ponto do meu braço, pulso, mão e dedos os poderem acompanhar. É uma coordenação impossível para mim. O teclado obriga-me a abrandar, a organizar e a aclarar o que aqui vai dentro. No ecrã surgem caracteres claros, limpos e impessoais, é certo, que me obrigam a conjugar melhor as palavras para as tornas minhas - pessoais e transmissíveis, mas nem sempre as partilho.

Talvez, naquele passado onde não escrevia, as ideias, os afectos e as vivências não fossem claros o suficiente para transformar as palavras solitárias em textos sentidos com sentido. Não havia consentimento, permissão, autorização para a expressão. 

Agora que a barreira baixou, agora que essa muralha caiu, posso escrever. Posso até escrever sobre a impossibilidade de escrever e sobre a vontade de o fazer.