Obsessões modernas, ambições clássicas

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Este texto chega com uma semana de atraso, apesar de o ter começado a escrever há algum tempo. Tenho querido escrever sobre tecnologia, sobre o impacto que tem nas nossas vidas, na minha vida. Nunca foi intenção de utilizar este espaço para fazer reviews de aplicações ou de aparelhos, nem é esse o sentido que quero dar a este texto, embora não queira fechar essa possibilidade, já que a renovação que quis fazer a este espaço tem a vantagem de não me limitar a formatos, propósitos e estilos predeterminados.

Como referi, há algum tempo que tenho vontade de partilhar algumas das ideias e reflexões que tenho feito acerca do papel da tecnologia, das influências e repercussões do seu uso na nossa vida enquanto indivíduos, sociedade e civilização. Mais concretamente tenho-me interessado por questões como: a acessibilidade da informação, do conhecimento e a dimensão “social” digital que hoje nos liga todos. Até os que nela não participam, ou dizem que não participam. Mesmo esses, estando fora, desempenham o seu papel e fazem sentir o seu impacto, pela oposição e exclusão, em mais do que um sentido, que representam.

Mais recentemente tomei contacto com o Evgeny Morozov - autor, pensador, crítico e profuso utilizador do Twitter. Para quem não o conhece sugiro a leitura deste artigo.

Li o seu primeiro livro The Net Desilusion e estou a meio do segundo To Save Everything Click Here. Considero o último brilhantemente bem escrito, por vezes sarcástico, irónico, crítico e ao mesmo tempo profundo e complexo. Quando um autor escreve um livro onde revela a qualidade do seu raciocínio, a facilidade e pertinência das suas associações, dizendo a seu respeito que ainda não está no ponto, que é apenas um ensaio para algo melhor que virá, confesso que sinto entusiasmo e reverência.

Uma vez mais, apercebo-me que já tinha escrito sobre este assunto - Prioridades trocadas; Papagaios…; A dimensão humana e a gestão das pessoas - apesar de partir de perspectivas diferentes; só podia ser assim mesmo pois apenas descobri o Morozov muito depois. Torna-se evidente que há ligações e associações que se fazem apenas depois de pensarmos várias vezes que temos pensamentos e ideias “originais”.

O que Morozov descreve e critica é uma tendência muito em voga de procurar soluções tecnológicas para questões humanas complexas. O que ele chama de “solucionismo”.


"É a vontade de melhorar, praticamente tudo! (…) A reformulação de todas as situações sociais complexas em problemas impecavelmente definidos, com soluções definitivas e computáveis ou como processos transparentes e óbvios que podem ser optimizados - se os algoritmos correctos estão em ordem! - é provável que esta demanda possa ter consequências inesperadas que podem eventualmente causar mais estragos do que os problemas que procuram resolver. À ideologia que legitima e sanciona aspirações deste género chamo “solucionismo”. Peço emprestado este termo descaradamente pejorativo ao mundo da arquitectura e planeamento urbano, onde tem sido utilizado para fazer referência a uma preocupação pouco saudável com soluções sexy, monumentais e de mente estreita - o tipo de coisa que deslumbra plateias nas conferências TED - para problemas que são extremamente complexos, fluidos e contenciosos."  — Evgneny Morozov em “To save everything click here”

Por razões profissionais e também por gosto pessoal, sigo várias fontes que noticiam as novidades e tendências, a um ritmo imparável e difícil de acompanhar, do mundo dos negócios e das tecnologias. Arrisco dizer que diariamente leio títulos, artigos e documentos que seguem esta tendência para que Morozov nos alerta. Uma das diferenças na minha perspectiva em relação à dele é que, pela minha experiência profissional, não restrinjo a crítica ao “mundo da tecnologia e da internet” mas sim à maioria dos componentes dos mundos empresarial e político actuais. Hoje vivemos num tipo mais sofisticado de taylorismo que apenas assim evoluiu porque a natureza das tarefas também se tornou mais complexa. Não apenas as tarefas mas também as pessoas, os colaboradores, sobretudo as de determinadas gerações, se tornaram mais exigentes na reclamação, embora de forma pouco expressiva por não a saberem sustentar, de um novo sentido para o trabalho como parte integrante e significativa das suas vidas. Estaremos numa fase em que passámos de, como Foucault chamou, “corpos dóceis” para “mentes dóceis”, onde o controlo é feito através do alimento de expectativas e ilusões de felicidade, bem-estar, prazer e soluções para as grandes questões da vida.

Que pretensioso é dizer que a culpa da falta produtividade e da infelicidade nas equipas, nas empresas, é do email e que ao optar pela ferramenta X, criada pela empresa que segue esta crença, é não apenas estar a aderir a uma nova tecnologia mas também a contribuir para a felicidade e resultados! Ou outra que pretende ser o nosso cérebro, a nossa memória, guardando tudo o que consideramos importante para podermos aceder mais tarde. O que se esquecem é que dessa forma estarão a contribuir para o definhamento ou, na melhor das hipóteses, para o não-desenvolvimento da capacidade de manter na memória aquilo que nos interessa. Na mesma linha, se tal me fosse pedido, conseguiria inventariar um conjunto de vantagens sobre a utilização dos tablets por crianças, estudantes e/ou como substitutos dos livros. Apesar disso conseguiria produzir uma lista tão grande ou maior para apoiar a causa contrária, especialmente no caso das crianças.


"A Educação não é a transmissão de informação ou de ideias. A Educação é o treino necessário para poder utilizar a informação e as ideias. À medida que a informação se liberta das livrarias e das bibliotecas e inunda os computadores e dispositivos móveis, esse treino torna-se mais importante, não menos."  — Evgeny Morozov cita Pamela Hieronymi em “To save everything click here”

Sem referir os nomes, devo alertar que utilizo os dois serviços a que me refiro acima e tenho um tablet que utilizo para ler, estudar, trabalhar e onde estou a terminar de escrever este texto.

Tal como Morozov, não me considero um crítico da tecnologia ou da “internet”. Quem me conhece sabe que sou um curioso e estou atento à área, provavelmente mais do que a maioria, e sou defensor da utilização dos mais diversos gadgets e serviços online.

Aquilo que critico, tal como Morozov, embora de forma diferente, é a pobre e limitada compreensão do que é a complexidade da natureza humana; é ver problemas e situações humanas, sociais, culturais e civilizacionais complexas serem decompostas em zeros e uns ou em receitas simplistas e sedutoras; é a confusão que se faz entre o conhecimento e a sabedoria e aquilo que é passado nas TED Talks; é ver que à Ciência (refiro-me aos que tratam a ciência com “C” grande), à tecnologia, à Economia, à Política é hoje atribuído muito mais valor e dada mais relevância do que à Cultura, à Educação, à Filosofia e às ciências sociais e humanas no geral; é ver que o Ricardo Araújo Pereira, o Bruno Nogueira e o Pedro Bidarra têm razão.

O ideal será viver com o melhor dos dois mundos. Mas, enquanto a tecnologia evolui a um passo difícil de acompanhar, o desenvolvimento humano é lento.


As Descobertas da Paternidade


Para o primeiro texto após a renovação anunciada há uma semana, aproveitando a sugestão de um amigo, decidi escrever sobre a paternidade, sobre parte da minha experiência enquanto pai inexperiente, como são todos cujos filhos nasceram há pouco tempo. Pensando bem, segundo uma determinada perspectiva, talvez não seja possível acumular experiência enquanto pai, pois os desafios são constantes, inesperados e diversos. Por exemplo, a chegada de um segundo filho pode tornar evidente a inutilidade da experiência feita, já que não se trata de replicar o que se aprendeu mas sim de construir de raiz uma nova relação e, consequentemente, de encontrar internamente toda uma nova forma de ser. Por outro lado, como em tudo, a experiência pode trazer mais tranquilidade e mais recursos para lidar com o inesperado. A experiência pode tornar mais adequadas e acertadas as reacções espontâneas e aqui sou levado a argumentar que a paternidade transporta a possibilidade de nos tornar melhores pessoas, a hipótese de transferir a sabedoria que se ganha para outros domínios da vida. 

Chegado a este ponto sinto a necessidade de expor a fatal limitação das minhas reflexões, ligadas de forma inseparável aos meus pontos de vista. Deixo claro que neste texto me referirei à minha experiência como pai, limitado que estou à minha condição de homem, pois acredito que há grandes diferenças entre a paternidade e a maternidade. 


"O mundo borrifa-se nos pais, e a arte limita-se a reproduzir esse menosprezo."  — Ricardo Araújo Pereira in Revista Visão (20 de Junho de 2013)

O Ricardo Araújo pereira tem razão, mesmo na ciência e na academia há muito mais tempo e cabeças que se dedicaram e se dedicam a pensar sobre a maternidade do que sobre a paternidade mas isso ficará para um outro texto.

Continuo, porém, porque acredito também que aquilo que distingue homens e mulheres, mães e pais, à parte das diferenças anatómicas, é, no fundo, também o que nos une e, por isso, penso que há mulheres que poderão sentir ou ter sentido algo parecido com o que exponho. É igualmente importante dizer que tudo o que escrevo reflecte não só a minha vivência mas também as experiências que faço da observação de outros pais e mães com quem me encontro. Paradoxalmente, a comparação é uma importante via de auto-conhecimento. 

Ser pai não é apenas ter filhos

Para mim, a paternidade não começa com o momento em que nasce o primeiro filho. Começará muito antes disso quando ideia de ser pai começa a instalar-se. Pode pensar-se ainda que ser pai começa com a vivência de ser filho, pois a construção da figura parental é indissociável das figuras que para nós tiveram esse significado. Portanto, ser pai não é apenas ter filhos. Essa é apenas a condição externa. Ser pai permite a descoberta de novas facetas, a construção de outras e implica, necessariamente, o contacto com as memórias e afectos de quando fomos filhos. Ser pai é descobrir uma nova forma de amor, diferente e mais intenso quando comparado com qualquer outro. Amor esse que nos leva a ter comportamentos, ideias e sentimentos que nunca antes tinham tido razão suficiente para existir.


"Para mim, o facto mais emblemático da minha paternidade é este: nunca comi tanta fruta bichada como desde que sou pai. Antes das minhas filhas nascerem, abordava fruteiras com uma empáfia que já não tenho. (…) Agora, procura a fruta com pior aspecto, corto a parte que é mesmo inaceitável,como e deixo o restante para as miúdas."  — Ricardo Araújo Pereira in Revista Visão (20 de Junho de 2013)

O nascimento de um filho, sobretudo do primeiro, desperta sentimentos muitas vezes considerados inexplicáveis, indizíveis. Se por um lado compreendo e me identifico com quem apenas isso consegue dizer, há uma faceta minha que não se contenta com não conseguir por em palavras o que se sente nessa altura. 

No meu caso, passaram pouco mais de  anos e ainda é vívida a memória e estão claros os sentimentos de quando nasceu o meu primeiro filho. Os últimos dias da gravidez, os momentos que antecederam o parto, as horas no hospital, a primeira vez que vi o meu filho, o momento em que me despedi dele e da mãe pela primeira vez, o regresso a casa e a constatação que mais ninguém havia a não ser nós os três; todos esses momentos se parecem ter fundido num só. Como se o sono não tivesse existido, e, de facto, poucas foram as horas passadas a dormir. Aquela realidade era de tal forma nova, foi tão intensa e despertara tantos medos, inseguranças, dúvidas, excitação e alegria que nem os sonhos conseguiam ser sonhos. Claro que a sonolência e o débil estado de vigília podem ter ajudado a este sentimento maravilhosamente assustador. 

As perguntas voavam - como pego nele? como se muda a fralda? será que o vou magoar? porque chora ele? porque não para de chorar? terá frio? calor? fome? e se o deixo cair no banho? é a minha vez ou a tua? como vai ser quando ficar sozinho com ele? serei bom pai? conseguirei vir a ser bom pai? - e algumas delas são rápida e espontaneamente respondidas enquanto que outras perduram podendo mesmo nunca desaparecer. Será bom que algumas não desapareçam mas as respostas vão certamente mudando. De notar que não referi aqui quaisquer interrogações de sentido mais prático, ligadas por exemplo à arrumação do espaço em casa, ao transporte, à dimensão financeira.  Grande parte desse tipo de questões, sinceramente, escapam ao meu interesse, pelo menos para aqui.


"A resposta é a desgraça da pergunta."  — Maurice Blanchot

É um lugar comum mas não deixa por isso de ser verdade, todas as dúvidas, incertezas e inquietações são equilibradas por momentos de puro êxtase, orgulho, alegria e admiração - os olhares trocados, os minutos intermináveis apenas a contemplar, o primeiro sorriso, os primeiros sons voluntários, os primeiros passos, as primeiras conversas, a primeira vez que diz: “gosto muito de ti”… A forma como sou recebido todos os dias quando chego a casa, vendo sempre no sorriso aberto e autêntico, na corrida frenética e no abraço cheio de calor genuínos felicidade, prazer e amor por passar a contar com a minha presença, fazendo desaparecer quaisquer pesos que o dia nos tenha feito carregar.

Ser pai é ver o mundo com outros olhos, a chegada de um novo elementos a uma família muda não só os pais mas todos os outros membros e as relações entre os mesmos. Há tanto ainda para dizer, uma imensidão de aspectos por abordar, mas não quero esgotar já este tema, até porque não seria possível. Não seria capaz de encontrar palavras para tudo o que penso e sinto sobre ele e também porque quero, sem dúvida, voltar a falar sobre ser pai. Há, contudo, ainda duas vertentes que gostaria de abordar: a relação do casal com a chegada de uma criança e a perspectiva e a realidade de um segundo filho. Começo pelo primeiro.

A chegada de uma criança introduz um novo tipo de amor em cada um dos membros do casal que tem impacto na ligação entre ambos

Só depois de ser pai me apercebi de uma situação, que não entendi ainda se é circunstancial ou se é algo mais constante. Um número considerável de casais - amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos e, certamente,desconhecidos - num espaço de cerca de dois anos depois de terem sido pais pela primeira vez estavam a passar por uma “fase difícil”, por uma crise, estavam a separar-se, separados ou divorciados. As razões serão diversas, complexas e particulares de cada caso mas a conjugação destes dois factores despertaram a minha atenção: a situação de crise ou fim da relação conjugal pouco tempo após o nascimento do primeiro filho.
Associei esta constatação a uma ideia exposta atrás - ser pai pela primeira vez coloca-nos em contacto com um tipo de amor nunca antes sentido. Pode ser que, mesmo sem qualquer intenção consciente e/ou voluntária, esse amor compita com aquele que existia antes entre os membros do casal; como se a intensidade dessa nova relação tirasse folgo à que existia anteriormente. Por outro lado, infelizmente, a mesma ideia, se válida, pode servir de pretexto para desinvestir numa relação que já estava pouco sólida e quebradiça. É claro que esta é uma visão simplista e não contempla a complexidade do que significa ser pai ou ser mãe. Quando nasce o primeiro filho há seis vidas que ganham novas realidades: a da criança, a do pai, a da mãe, a da relação entre o pai e mãe, a da relação entre mãe e o filho e a da relação entre o pai e o filho.

O surgimento de uma criança e a consequente constituição de uma família provocam alterações e transformações profundas a vários níveis para as quais nem sempre se tem a preparação, a capacidade de adaptação e/ou o apoio suficientes. Qualquer relação, nomeadamente uma relação conjugal, exigem dedicação e trabalho para manter e hoje vivemos numa atitude de excessivo individualismo, pautado por uma necessidade de satisfação imediata do desejo e consequente baixa resistência à frustração e à desilusão. Adicionalmente, verificam-se grandes alterações nas organizações familiares, fruto dos momentos cultural, social e económico actuais; onde muitas vezes os pais têm dificuldades em passar tempo de qualidade com os filhos, de tal forma absorvidos pelos seus compromissos profissionais, ou onde os avós, muitos que ainda têm de trabalhar mais do que nunca, não podem dar o apoio tão útil e importante seria.

Passo para o segundo assunto, com o qual terminarei, que diz respeito ao também segundo filho. No início deste texto referi que adiro à perspectiva que cada um dos pais estabelece uma nova relação com quantos filhos tiver. Contudo, apesar de não ter ainda a experiência de ter dois filhos, correndo o risco de me contradizer no que respeita à ideia da acumulação de experiência, acredito que as maiores questões a este respeito surgirão na passagem de um para dois filhos. É outro momento onde as perguntas surgem com grande cadência e intensidade. São naturalmente perguntas de outro tipo - como será este novo filho? tenho eu este tipo de amor e de atenção para dar a outra pessoa? e se não gostar tanto do segundo como do primeiro? e se gostar mais do segundo do que do primeiro? posso ter preferidos? é legítimo ter preferidos? e se tiver preferido, como fica o outro? como fico eu? como ficam eles? - perguntas que me tenho colocado tendo já respondido a algumas e sabendo que em relação a outras apenas poderei responder em Abril, quando o novo elemento da família nascer para nos mudar a todos, e outras que, uma vez mais e ainda bem, ficarão por responder.

A diferença está em já ser pai e por isso melhor pessoa. Estou mais bem preparado não só para um segundo filho mas para qualquer desafio que a vida me traga ou que eu desenhe.

Venham mais comentários e sugestões.  Até para a semana!

Conto Filosófico


Na edição do Governo Sombra do dia 22 de Fevereiro de 2013 o Ricardo Araújo Pereiro utilizou um conto filosófico, cujo autor não referiu, que achei delicioso.

Era algo como isto:

Um mendigo está junto a uma chaminé de um restaurante, a tentar captar os odores da comida em duas fatias de pão. O dono do restaurante apercebe-se do que estava a fazer o mendigo e aborda-o:

  • Sabe que vai ter de pagar por isso. O cheiro da minha comida paga-se!

O mendigo procura no seu bolso uma pequena moeda, das “pretas”, que atira ao ar e deixa aterrar no chão, fazendo esta o som característico de uma moeda a cair, e diz:

  • Muito bem. Pago o cheiro da sua comida com o som desta moeda.

Alguém sabe quem é o autor deste conto?