"Se não sabe, porque é que pergunta?"

Entre muitas outras possibilidades de temas interessantes para escrever e partilhar nesta semana, uma reflexão que o meu amigo Pedro Mateus, que, entre outras coisas, é professor, partilhou no seu blogue teve o efeito que os bons pensamentos normalmente têm: produzir mais ideias. Depois de ler a sua publicação, estive para lhe responder na caixa de comentários. Não o fiz porque me vi envolto numa associação de ideias que gostaria de explorar com mais atenção e dedicação.

A primeira das ligações que fiz deu origem ao título deste texto. A grande sabedoria do João dos Santos deveria ter ainda mais expressão do que já tem. 

Lembrei-me também de um outro que li em tempos no blogue Semiose e que também comentei. Podia continuar a descrever as associações que fui fazendo mas acredito que isso se tornaria numa distracção para quem lê e para mim próprio.

Concordo e identifico-me com quase tudo o que o Pedro escreveu. No segundo parágrafo hesitei em aderir de imediato, tendo acabado por entender o propósito daquelas palavras. Foi no último, contudo, onde me detive mais tempo, onde precisei de reler para digerir as perspectivas lá contidas. Penso que consegui perceber a intenção, o propósito e as eventuais razões que levaram o meu amigo a escrever o que escreveu. Contudo, senti necessidade de complementar, provavelmente porque tenha visto um ângulo que o Pedro não contemplou, pelo menos no texto que escreveu. 

Claro que este exercício, este processo, de procurar encaixar outros pontos de vista no nosso, é algo que acontece automaticamente - de forma “transparente” diria Heidegger. Quanto mais consciente é este processo, por consequência menos “transparente”, mais condições teremos de escolher estar abertos a mudar a nossa própria perspectiva ou a mantê-la. No que acabei de escrever está implícito, mas penso ser importante explicitar, que mudar ou não de perspectiva é uma escolha, mesmo que disso não sejamos conscientes. Mais importante do que isso é verificar que quando entramos num exercício reflexivo deste género, como são quase todos, onde tomamos contacto com uma ideia que não é exacta e imediatamente incorporada no “nosso puzzle”, ao mantermos uma postura de abertura, de flexibilidade e de curiosidade constrói-se em conjunto uma ideia mais sofisticada (ao escrever estas últimas palavras lembrei-me disto).

Mas basta de introdução. Eis o referido último parágrafo.


" (…) A verdade é que somos cada vez mais uma sociedade dependente da solução de alguém, quando deveríamos ter evoluido para uma sociedade com uma educação enriquecedora. Uma sociedade onde a acção devia de estar antes da pergunta, onde o errar deveria ser visto como uma fase da aprendizagem, onde as pessoas fossem encaminhadas para as soluções e não carimbadas com as soluções! Aprendam a errar, não acertem a perguntar!"  — Pedro Mateus

Acredito que são as boas perguntas - já escrevi sobre este tema (aqui ou aqui) havendo muito ainda para dizer sobre a noção de boas perguntas - cujas respostas, nunca finais, levam a acções conscenciosas. Intuo que o Pedro se referirá às perguntas cuja resposta procura apenas a receita, a solução já “inventada” e vigente. Se a minha interpretação está correcta, concordo em parte.

Mais, continuando a concordar, acredito que aprender não é possível sem errar. Tudo o que acontece quando não se considera o erro como parte da aprendizagem é apenas acumulação de informação. Essa é uma possível distinção entre conhecimento (acumulação de informação com aplicabilidade operacional) e sabedoria (incorporação da informação na experiência afectiva e, consequentemente, numa forma de ser em solidão e em comunhão)

Por outro lado, perguntar é, em si, uma acção. Perguntar não tem que levar à inacção, que, em si, também é acção. Por isso, para mim, a questão está em que tipo de acção, que tipo de perguntas, estamos a colocar. Tudo o que não coloque em causa o estabelecido, o status quo, ainda que mesmo que se concorde no final, não pode ser considerado verdadeira aprendizagem. Especialmente quando o tema de observação somos nós próprios.

Pegando na provocação final do Pedro Mateus, sem dúvida, aprenda-se a errar, aprenda-se a perguntar!

As consequências da inconsequência

Embora não seja ainda parte do senso comum, em alguns meios, nomeadamente na Linguística e Filosofia da Linguagem, a linguagem é mais que um conjunto de símbolos convencionados que servem para descrever a realidade. A linguagem em si é realidade, cria realidades. A linguagem é acção.

A inconsequência do discurso é uma situação comum, bem mais do que o desejável, e nos dias que correm é fonte de muitos dos graves e complexos problemas e desafios que vivemos. É basicamente a incoerência entre o dito e o feito, entre a acção declarada e a acção efectiva.

Como a linguagem é, por si só, acção, o discurso terá sempre consequências, como toda a acção. O impacto nota-se tanto ao nível do emissor como ao nível dos receptores.

Heis dois cenários possíveis, entre muitos outros:

  • Um discurso inconsequente, incongruente com as acções efectivas seguintes, influencia a imagem pública do emissor. Influencia a ideia que terceiros constroem do portador da “mensagem”, do actor linguístico.

  • Mesmo que a identidade pública não seja afectada, há o risco de o próprio entrar e percorrer uma espiral de culpa, de tensão e pressão provocada pela realidade criada pela linguagem. A declaração tem o poder vinculativo a um futuro. A não aproximação a esse futuro poderá configurar-se como um factor motivador deste tipo de sofrimento.