Polaridades


É inegável a tendência humana para categorizar, para arrumar toda a experiência em “gavetas com etiquetas”. Uma das expressões desta tendência e capacidade revela-se na polarização. Um tipo particular de categorizarão que está disponível como um conjunto de atalhos de fácil acesso que nos permitem conduzir a vida, a nossa acção, os nossos comportamentos num determinado sentido.

Bem vs. Mal, Certo vs. Errado, Bonito vs. Feio, Normal vs. Anormal, Normal vs. Patológico, Arte vs. Ciência… São demasiados os exemplos clássicos para os listar todos. Apenas com esta breve lista fica uma ideia do poder e complexidade que esta forma de pensar contém.

Numa época em que sobressaem valores como a Produtividade, a Eficácia, o Lucro, o Empreendedorismo, é expectável que se criem espectros com pólos como:

  • Ricos vs. pobres;
  • Sucesso vs. insucesso;
  • Poder vs. Impotência
  • Negócio e ócio…

Por exemplo, saber gerir bem uma empresa, ganhar e dar a ganhar muito dinheiro, é hoje muito mais importante do que viver bem com o parceiro(a), ser bom pai/mãe (e para isso é necessário saber o seu significado), saber dar e receber, contribuir com mais do que bens materiais, deixar um legado afectivo.

Vive-se sob a égide de fazer mais e melhor para ter mais e melhor. Ser melhor passou para segundo plano.

Apesar disso, nos dias que correm, é muito habitual ouvir queixas e lamentações, desejos e sonhos de um maior equilíbrio, de atingir a virtude que residirá, se o que diz o ditado é verdade, no meio. Exactamente a meio caminho entre os dois pólos. Estranhos tempos vivemos (que cliché…). Tempos onde aquilo que, finalmente, percebemos que queremos ser está tão longe das nossas acções. Onde as soluções encontradas não passam de saliva numa ferida aberta, de ilusões, de cenas bem orquestradas por aqueles que definham mas precisam de manter o status: nós próprios. Que ingénuos somos.

Os que não o são sofrem. Sabem que este não é o caminho mas também não estão seguros do seu porque, na esmagadora maioria das vezes, não será reconhecido, à luz do quadro de referência ainda vigente.

É difícil fazer parte de uma minoria, mesmo que seja uma elite. Aprenda-se a viver com este “fracasso”, com este insucesso. Se suficientes pessoas o fizerem desta forma talvez a Sabedoria se sobreponha aos Valores que têm um número associado.

Para Montaigne, sempre apoiado na, para ele, “pessoa mais sábia que viveu”, o filósofo grego Sócrates, a sabedoria está mais próxima do saber viver bem. Diferente de outro tipo de conhecimento que se obtém através da aprendizagem (formal ou tradicional, digo eu) que se liga ao saber fazer.

Reflicta-se sobre o papel das escolas, da família, dos pais, das empresas, dos governos.

Estamos hoje, sem dúvida, mais conhecedores. A informação e o conhecimento estão e continuarão a estar cada vez mais acessíveis.

Mas estaremos mais sábios? Ou pelo menos a caminhar nesse sentido?

Este é um espectro a que devemos estar mais atentos, que deve estar “mais à mão”: Sabedoria vs. Conhecimento.

Manual de Instruções

manual

Os juízos são o manual de instruções do mundo. São uma forma de atribuir sentido às coisas. Um meio de satisfazer a nossa vontade insaciável de categorizar e etiquetar.

Quando temos já o nosso “arquivo” bem organizado e categorizado, não demoramos muito a fazê-lo, facilmente construímos “manuais de instruções” que, por sua vez, são alimentados pela cultura, educação e experiência. As próprias categorias sofrem as mesmas influências.

Isto é muito evidente nas religiões, por exemplo, que nos dão manuais bastante simples para seguir princípios bastante complexos. Não entraremos por aqui, contudo. Os curiosos poderão interessar-se por este livro.

Que faríamos se o nosso manual de instruções já não servisse para explicar como funcionam as coisas?

Provavelmente sentir-nos-íamos perdidos, sem referência, a “apalpar terreno”… Tanto pode ser uma fonte de aprendizagem como de frustração e medo imobilizadores.

Que acontece quando um produto/situação muda ou é actualizado?

O manual de instruções anterior não servirá. Há que investir tempo para criar e/ou ler as novas indicações.

O verdadeiro ponto não será nenhum dos destes. A questão é que quando temos o nosso arquivo bem arrumado e criamos categorias para atribuir sentido a tudo o que se passa, somos espectacularmente rápidos a encaixar numa dessas gavetas as situações/experiências/pessoas “novas”.

Esta, extraordinariamente útil, capacidade de categorizar que possuímos, por muito que nos acelere as respostas e reacções, poderá ter um lado prejudicial. A impossibilidade de verdadeiramente nos ligarmos às situação, às experiências e/ou às pessoas com quem interagimos.

O risco e a tentação de interagirmos com “o nosso arquivo” em vez da realidade que nos circunda são permanentes.