As consequências da inconsequência

Embora não seja ainda parte do senso comum, em alguns meios, nomeadamente na Linguística e Filosofia da Linguagem, a linguagem é mais que um conjunto de símbolos convencionados que servem para descrever a realidade. A linguagem em si é realidade, cria realidades. A linguagem é acção.

A inconsequência do discurso é uma situação comum, bem mais do que o desejável, e nos dias que correm é fonte de muitos dos graves e complexos problemas e desafios que vivemos. É basicamente a incoerência entre o dito e o feito, entre a acção declarada e a acção efectiva.

Como a linguagem é, por si só, acção, o discurso terá sempre consequências, como toda a acção. O impacto nota-se tanto ao nível do emissor como ao nível dos receptores.

Heis dois cenários possíveis, entre muitos outros:

  • Um discurso inconsequente, incongruente com as acções efectivas seguintes, influencia a imagem pública do emissor. Influencia a ideia que terceiros constroem do portador da “mensagem”, do actor linguístico.

  • Mesmo que a identidade pública não seja afectada, há o risco de o próprio entrar e percorrer uma espiral de culpa, de tensão e pressão provocada pela realidade criada pela linguagem. A declaração tem o poder vinculativo a um futuro. A não aproximação a esse futuro poderá configurar-se como um factor motivador deste tipo de sofrimento.

Uma mudança de época

"Mais do que uma época de mudanças, o momento em que vivemos deve configurar-se como uma mudança de época".

Não podíamos estar mais de acordo com a expressão, cujo autor e respectiva referência, infeliz e injustamente, se apagaram da memória. Arriscamos mesmo dizer que a mudança necessária não é apenas política, económica, nem social. É, sobretudo, cultural ou mesmo civilizacional.

Concebemos as organizações como “redes de conversações orientadas para resultados”. Neste contexto o coaching entra como um processo de apoio à afinação e refinação dos discursos, das narrativas individuais e colectivas. Configura-se num veículo - aliás a origem do termo vem do “coche” - que pode permitir a promoção de aprendizagens que tornem as conversações mais eficazes, claras e precisas.

Não basta apenas mudar as palavras. Esse seria um exercício infrutífero. Ao mudar as narrativas alteram-se as concepções, os paradigmas com que observamos o mundo, as interpretações e juízos que fazemos. A linguagem é um agente intermediário privilegiado neste processo de mudança. Não é porventura o único nem será o mais importante.

Para nós, aprendizagem não é apenas a aquisição de uma nova capacidade de execução. A verdadeira aprendizagem implica a identificação do indivíduo com o que é aprendido. Para que a aprendizagem aconteça, para que seja efectiva e sustentada, o tempo é um factor preponderante.

É essencial para que a referida identificação ocorra, para que o que foi aprendido se transforme em mais do que apenas novas maneiras de fazer, se torne em novas maneiras de falar, de se relacionar com os outros e de ser. Sem tempo essa nova capacidade de execução não se pode tingir com um fundo afectivo que permita retirar prazer das novas competências, tornando-as assim parte do indivíduo.

O que precisamos então de aprender? Individual e colectivamente? Que paradigmas devemos, queremos ou temos de mudar?

Embora a solução imediata nos escape, talvez porque não seja imediata, estamos convictos que a mudança passará por uma maior atenção e (pre)ocupação com as pessoas, com a dimensão humana. Os paradigmas positivista e economicista que influenciam a gestão e a ciência modernas afastam-nos, têm-nos afastado, deste propósito.

Persigamos novos caminhos de aprendizagem. Quem sabe, nem teremos de os inventar, bastará recuperá-los.

Publicado no Jornal OJE Suplemento Human de Junho de 2012

(Fonte: oje.pt)