Philographics

Normalmente apenas coloco neste espaço ideias que vão surgindo, reflexões que vou fazendo e experiências que vou vivendo.

Esta publicação foge completamente a essa “regra”. Já conhecia o trabalho de Genis Carreras há algum tempo. Especialmente a série “Philographics” I e II.

​Não resisti a partilhar…

Conto Filosófico


Na edição do Governo Sombra do dia 22 de Fevereiro de 2013 o Ricardo Araújo Pereiro utilizou um conto filosófico, cujo autor não referiu, que achei delicioso.

Era algo como isto:

Um mendigo está junto a uma chaminé de um restaurante, a tentar captar os odores da comida em duas fatias de pão. O dono do restaurante apercebe-se do que estava a fazer o mendigo e aborda-o:

  • Sabe que vai ter de pagar por isso. O cheiro da minha comida paga-se!

O mendigo procura no seu bolso uma pequena moeda, das “pretas”, que atira ao ar e deixa aterrar no chão, fazendo esta o som característico de uma moeda a cair, e diz:

  • Muito bem. Pago o cheiro da sua comida com o som desta moeda.

Alguém sabe quem é o autor deste conto?

As consequências da inconsequência

Embora não seja ainda parte do senso comum, em alguns meios, nomeadamente na Linguística e Filosofia da Linguagem, a linguagem é mais que um conjunto de símbolos convencionados que servem para descrever a realidade. A linguagem em si é realidade, cria realidades. A linguagem é acção.

A inconsequência do discurso é uma situação comum, bem mais do que o desejável, e nos dias que correm é fonte de muitos dos graves e complexos problemas e desafios que vivemos. É basicamente a incoerência entre o dito e o feito, entre a acção declarada e a acção efectiva.

Como a linguagem é, por si só, acção, o discurso terá sempre consequências, como toda a acção. O impacto nota-se tanto ao nível do emissor como ao nível dos receptores.

Heis dois cenários possíveis, entre muitos outros:

  • Um discurso inconsequente, incongruente com as acções efectivas seguintes, influencia a imagem pública do emissor. Influencia a ideia que terceiros constroem do portador da “mensagem”, do actor linguístico.

  • Mesmo que a identidade pública não seja afectada, há o risco de o próprio entrar e percorrer uma espiral de culpa, de tensão e pressão provocada pela realidade criada pela linguagem. A declaração tem o poder vinculativo a um futuro. A não aproximação a esse futuro poderá configurar-se como um factor motivador deste tipo de sofrimento.