Outros benefícios (?) das redes sociais

No texto da semana passada não referi um aspecto que é um inegável benefício das redes sociais. É a principal razão que me leva a utilizá-las. Elas permitem-nos estar informados, estar a par das últimas notícias. Impelem-nos a desenvolver capacidades de filtragem rápida e eficiente para eliminar o muito lixo que circula e, assim, encontrar a informação que nos interessa. É claro que um primeiro filtro se estabelece com a decisão de quem e do que “seguir”. Decisão que não está apelas relacionada com a sede de informação, há factores sociais e outros interesses associados de que nem sempre nos apercebemos ou temos em conta .

Essa primeira peneira não é suficiente para lidar com a quantidade e a velocidade a que a informação é transmitida e partilhada. Mesmo a construção e utilização de um método de triagem muito sofisticado não impedirá a necessidade de um investimento de tempo considerável para esse exercício. Não sei quanto tempo uma amêijoa ou um perceve demorarão a filtrar água do mar até se sentirem saciados, até encontrarem o alimento de que necessitam. Arrisco a dizer que dedicam a maior parte da sua vida a alimentar-se. Além da reprodução, não haverá muito mais para uma amêijoa fazer.

Eu sei o tempo que gasto a ler títulos para descartar os que penso que não terão interesse; para abrir e passar os olhos rapidamente nos que me deixam dúvidas; para guardar para mais tarde os que julgo que me poderão interessar ou para me dedicar aos que me interessam no momento, quando tenho tempo. Não sei precisar quanto tempo esta dinâmica me ocupa diariamente mas é muito, distribuído por alguns momentos ao longo do dia. Nem entrarei pela questão da precisão e acuidade destes filtros. Qual será a quantidade de informação de qualidade e com interesse que escapará? Seria mais fácil chegar ao número de escolhas que se revelam desinteressantes, mas isso implicaria mais tempo e dedicação.



Ainda penso que tenho mais capacidades e ambição do que um perceve e, além disso, a minha sobrevivência não depende desta filtração. No entanto, há muitos convencidos do contrário, suportados na crença que a aquisição deste tipo de capacidades será essencial para sobreviver nos dias que correm e nos que hão de vir. Há quem vá mais longe ao defender que os que não souberem código, os que não sejam capazes de programar, não terão trabalho num futuro próximo.

Convém parar e recordar que falamos de informação. Não é o mesmo que conhecimento e muito menos se pode comparar à sabedoria. Sinto que estas distinções não estarão claras nem presentes. Para muitos e para muitas empresas da “internet” interessa que os utilizadores continuem confundidos. Por exemplo, há muitos de nós a julgar que ficamos mais sábios após ver um vídeo do TED. Como se de injecções de sabedoria se tratassem.

Como poderão as leitoras e os leitores já ter percebido, os argumentos e observações até aqui explorados não se limitam apenas às redes sociais. São parte de algo mais vasto que muitos apelidam de “internet”, palavra criticada pela sua utilização abusiva e demasiado abrangente, e, quanto a mim, com razão.

Estamos a falar de questões sociais, culturais e humanas que vão muito além da tecnologia. Falamos de um determinado modo de ser e de fazer que pode acarretar riscos importantes para a humanidade. A ambição de resolver tudo o que são problemas humanos, sociais, culturais, políticos e organizacionais através da tecnologia é algo que me deixa com muitas reservas e com bastante apreensão.

Há estudos que nos explicam o número exacto de caracteres que um texto deve ter para poder ser lido por mais pessoas e, de forma mais precisa, para não enfadar nem levar ao abandono da sua leitura; há quem saiba o número exacto de minutos e segundos que um vídeo deve ter para ser visto até ao fim.

Quando alguém afirmar que sabe quantas relações estabelecidas através das redes sociais são necessárias para atingirmos a felicidade estamos salvos ou condenados.

Embora reconheça que estas capacidades são úteis e podem ajudar na adaptação ao mundo de hoje, tenho para mim que não podemos, não posso, deixar-me levar por esta onda. Há que reclamar o direito, ao ócio, à atenção, à presença, ao afecto autêntico e genuíno. Tudo isto leva tempo e muitos mais caracteres e minutos do que qualquer artigo ou vídeo fabricados a pensar na geração da “internet”, que somos todos nós que nela estamos.

Consciência, Aprendizagem e Sabedoria: Homenagem ao Avô Gaspar

Antes…

É dia 16 de Agosto de 2013. Acabo de visitar os meus avós paternos que entre ambos já deram 176 voltas ao Sol, repartidas irmamente. O meu avô regressara do hospital depois de uma estadia forçada. Temeu-se o pior, ou o melhor, dependendo da perspectiva.

O meu avô está vivo. O meu avô morreu. Das duas últimas vezes que o vi não estive com ele. Dirigi-lhe algumas palavras de afecto e carinho pois o avô que conheci as merecia. Muito me ensinou o meu avô, mesmo sem ser esse o seu propósito.

Esta foi mais uma das ocasiões onde aprendi, em que iniciei um caminho que me levará a algum tipo de aprendizagem. Sendo eu um curioso, sobretudo sobre o que à natureza humana diz respeito, esta experiência despertou-me um interesse particular num tema intemporal e que hoje parece estar na moda: a consciência. Interessei-me pelo significado desta palavra, deste estado, desta fase. Filósofos, escultores, psicólogos, escritores, médicos, biólogos, pintores e outros sem têm ocupado a compreender, a explicar e a expressar o que é a consciência. Todos eles investigadores e exemplares perfeitamente imperfeitos da natureza humana. Mesmo tendo a noção que sei infinitamente menos quando me comparo com estes outros, não diminui a minha vontade de pensar, de saber e de compreender, cada vez mais, quem sou, quem somos. Onde está o meu avô?

Li e ouvi recentemente que a consciência é um fenómeno biológico:

"A consciência consiste em todos os estados de sentimento, senciência ou de atenção (tradução pobre para awareness). Começa de manhã quando acordamos de um sono sem sonhos e continua até que adormeçamos ou morramos, que fiquemos inconscientes. Os sonhos são uma forma de consciêcia, segundo esta definição” (John Searle)

Não é uma ficção nem é algo imaterial.

Sem me alongar com grandes explicações ou interpretações, o mesmo autor deixa-nos aqueles aspectos da consciência que considera fundamentais:

  1. Existe e é irredutível;

    "A distinção entre a realidade e uma ilusão é a distinção entre como as coisas parecem de forma consciente e como são realmente. (…) Se nos parece, conscientemente, que estamos conscientes, então estamos conscientes".

  2. Todos os estados conscientes têm um caracter qualitativo, que leva ao terceiro factor;

  3. Os estados conscientes são subjectivos por definição, já que apenas existem sob a forma de uma experiência humana ou animal. Há uma entidade que os experimenta;

  4. Chega-nos em campos de consciência unificados, não experimentados a consciência de elementos ou manifestações isoladas mas sim como uma experiência una;

  5. Funciona causalmente no nosso comportamento, partindo de uma intenção subjectiva há uma sequência de disparos neuronais que determinam a libertação de substâncias e a predisposição para receber ou inibir esses sinais. Imaginando uma acção simples como levantar um braço, encontra-se uma componente que vou chamar metafísica/espiritual/subjectiva e simultaneamente um conjunto de processos químicos, eléctricos e físicos. É uma ideia e ao mesmo tempo um conjunto de informações concretas. Um mesmo episódio, levantar o braço, tem um nível descritivo que é neurobiológico e um nível de descrição que é psicológico, e é um único evento.

A consciência tem ainda outras particularidades, fruto de muitos outros pontos de vista e de abordagem a este assunto. Mas não será por aí que seguirei pois agora há memórias, há ideias, vivem afectos muito mais importantes, muito mais presentes e intensos.

Paro de escrever para mais tarde continuar…

Depois…

Já é dia 8 de Setembro. O corpo do meu avô deixou de funcionar há três dias, muito tempo depois da sua consciência se ter deixado de manifestar, pelo menos da forma como eu e grande parte das outras pessoas estávamos habituados a conhecer. Agora sei onde ele está.

Já disse e já escrevi que muito aprendi com o meu Avô Gaspar. Foi ele que me ensinou a assobiar, a nadar sem bóias, foi ele que me mostrou como mergulhar do barco para as águas geladas das baías que se espalham para Sul e para Norte desde a vila de Sesimbra, foi o avô que me mostrou como controlar o pequeno coco com os seus remos que, mesmo sendo enormes, eram suficientemente leves para uma criança de 5 anos as poder manejar. Foi ele que, fora da lei, porque eu ainda não tinha idade suficiente, me ensinou a domar um carrinha a diesel, que utilizava para distribuir as suas vassouras e escovas por quem quisesse livrar-se do pó e pretendesse manter a sua casa ou estabelecimento imaculados.

Mostrou-me, para que eu aprendesse sozinho, que o afecto, o amor, está nas acções, nas intenções, está numa particular forma de estar. Por exemplo, “inventou” uma carta de marinheiro para mim e para o meu irmão, que “oficialmente” me atribuía as funções de remador de coco e vigia de baleeira. Só anos mais tarde quando fui tirar a carta verdadeira me apercebi que aquele documento de nada servia. O que não é verdade! O que conta, ainda hoje, é o que aquele papel plastificado, com uma fotografia minha e o carimbo oficial da capitania, significou durante todos aqueles anos, oferecendo-me um reconhecimento, uma confiança e um orgulho que, no fundo, eram dele.

Em todos os momentos que me acompanhou, tantas vezes com o meu irmão e com os meus amigos, mostrou-me que o amor quando é bem integrado e canalizado se transforma em paciência, em tolerância, e que quando esta se esgotava, o que não acontecia com frequência, apesar dos nossos esforços para a quebrar, o amor lá estava, mesmo nas reprimendas.

Revelou-me que a memória, mesmo quando o cérebro parece já não funcionar com a frescura de outrora, conserva os momentos que para os outros parecem insignificantes e que são inolvidáveis e marcantes para os que os viveram. Como uma das muitas idas à Feira Popular, já no fim da visita, numa altura em que lhe pedia moedas de forma incessante e insistente para fazer saltar e correr as tartarugas ninja, se volta para um amigo que nos acompanhava e lhe comenta: "este cabrão leva-me as moedas todas", esperando que não o estivesse a ouvir. Mas eu ouvi, desde cedo capaz de prestar atenção ao que me envolvia, e respondi, mesmo sem saber o significado daquela palavra mas pressentindo que seria uma ofensa: "cabrão és tu!"

Mostrou-me que o humor é uma faceta com várias dimensões. Que podemos rir e fazer rir evocando as situações mais brejeiras ou encontrando as associações mais sofisticadas. Era a prova viva que estes dois tipos de humor, que vivem em extremos opostos, podem coexistir na mesma pessoa, numa mesma intervenção.

Exemplificou que a generosidade apenas vive quando acompanhada da honestidade, da integridade e da rectidão. E que todas estas qualidades, tão raras nos dias de hoje, quando condimentadas com a genuinidade, com a lealdade, com o afecto, com o sentido de família e de amizade fazem um homem extraordinariamente comum, diferente de todos os outros mas que se encaixa em qualquer um.

Não podia deixar de referir, procurando sair desta reflexão egoísta, que não fui o único a aprender com o Gaspar, que era “avô” ou “senhor” para muita gente. Ensinou aos outros e a mim por arrasto, que todas estas virtudes apenas o são quando existem em coerência, para todos, com as óbvias distinções pela proximidade das relações. Ensinou, certamente, o meu pai a ser um excelente avô do meu filho.

Nos momentos mais tristes e difíceis da sua velhice aprendi como não envelhecer. Ensinou-me que a dedicação aos outros sem simultaneamente haver uma dedicação a si próprio, pode trazer dissabores aos primeiros, sem que nunca tenha existido essa intenção. Ensinou-me que a dedicação a uma tarefa ou a um trabalho é fundamental apenas quando não se torna no centro de tudo, pois quando a vida nos traz outras circunstâncias, diferentes das que estávamos acostumados, quando esse centro deixa de o ser torna-se difícil encontrar um novo equilíbrio.

As músicas e as lengalengas que não esqueci, as asneiras que aprendi a não dizer ou a deixar sair na altura certa, as viagens de barco, os passeios de carro, as idas e as voltas ficarão comigo e passarão a todos os que eu tocar, a alguns em especial.

Ensinou-me sobretudo porque nunca teve a pretensão nem a pressão de me ensinar. Deixou que eu me encarregasse de aprender, apesar de eu pensar que ele nunca pensou nisto.

Disseram-me e eu concordo que "a morte é uma experiência dos vivos". Mesmo na sua morte consegui encontrar uma triste mas boa vivência ao lembrar-me de tudo isto e ao escrever este texto.

Faltam as palavras. Encontrem-se as palavras.

Não basta conhecer as palavras e o seu significado para se ser bom escritor, ou bom comunicador. Tampouco se conseguirá atingir a simplicidade, a sabedoria, apenas por essa via. Há que conhecer os afectos, a vida, a complexidade humana. Só assim se conseguirão expor situações, ideias e sentimentos que apenas uma correcta conjugação das palavras não conseguiria transmitir. Até porque, por vezes, as palavras não existem, são ambíguas ou não nos soam àquilo que sentimos e pensamos. Porque a sua simples conjugação e combinação não revela directamente a complexidade da experiência.

A clareza é importante na comunicação. É um cliché, bem sei.

Quando falo de clareza faço-o tendo em mente a passagem da informação, do sentido e do que se sente. É tanto mais claro para o próprio quanto a sua capacidade de perceber, interpretar e descodificar a vida, a sua vida. Quanto à dos outros, a vida, a ela apenas tem acesso através da sua.

Será através da mesma clareza e simplicidade com que nos devemos dar a conhecer aos outros, que podemos aceder a uma compreensão mais sofisticada de quem somos, também através dos com quem nos relacionamos.

Tal compreensão surgirá, através de um “viver inteligente”, onde a vida não é apenas uma sucessão de acontecimentos, percepções e sentimentos mas uma constante aprendizagem que brota de uma reflexão activa, crítica e fundamentada sobre esses mesmos episódios e experiências.

A vida é bem vivida quando a experiência é integrada nos afectos e estes, por sua vez, não são dela separáveis.

Polaridades


É inegável a tendência humana para categorizar, para arrumar toda a experiência em “gavetas com etiquetas”. Uma das expressões desta tendência e capacidade revela-se na polarização. Um tipo particular de categorizarão que está disponível como um conjunto de atalhos de fácil acesso que nos permitem conduzir a vida, a nossa acção, os nossos comportamentos num determinado sentido.

Bem vs. Mal, Certo vs. Errado, Bonito vs. Feio, Normal vs. Anormal, Normal vs. Patológico, Arte vs. Ciência… São demasiados os exemplos clássicos para os listar todos. Apenas com esta breve lista fica uma ideia do poder e complexidade que esta forma de pensar contém.

Numa época em que sobressaem valores como a Produtividade, a Eficácia, o Lucro, o Empreendedorismo, é expectável que se criem espectros com pólos como:

  • Ricos vs. pobres;
  • Sucesso vs. insucesso;
  • Poder vs. Impotência
  • Negócio e ócio…

Por exemplo, saber gerir bem uma empresa, ganhar e dar a ganhar muito dinheiro, é hoje muito mais importante do que viver bem com o parceiro(a), ser bom pai/mãe (e para isso é necessário saber o seu significado), saber dar e receber, contribuir com mais do que bens materiais, deixar um legado afectivo.

Vive-se sob a égide de fazer mais e melhor para ter mais e melhor. Ser melhor passou para segundo plano.

Apesar disso, nos dias que correm, é muito habitual ouvir queixas e lamentações, desejos e sonhos de um maior equilíbrio, de atingir a virtude que residirá, se o que diz o ditado é verdade, no meio. Exactamente a meio caminho entre os dois pólos. Estranhos tempos vivemos (que cliché…). Tempos onde aquilo que, finalmente, percebemos que queremos ser está tão longe das nossas acções. Onde as soluções encontradas não passam de saliva numa ferida aberta, de ilusões, de cenas bem orquestradas por aqueles que definham mas precisam de manter o status: nós próprios. Que ingénuos somos.

Os que não o são sofrem. Sabem que este não é o caminho mas também não estão seguros do seu porque, na esmagadora maioria das vezes, não será reconhecido, à luz do quadro de referência ainda vigente.

É difícil fazer parte de uma minoria, mesmo que seja uma elite. Aprenda-se a viver com este “fracasso”, com este insucesso. Se suficientes pessoas o fizerem desta forma talvez a Sabedoria se sobreponha aos Valores que têm um número associado.

Para Montaigne, sempre apoiado na, para ele, “pessoa mais sábia que viveu”, o filósofo grego Sócrates, a sabedoria está mais próxima do saber viver bem. Diferente de outro tipo de conhecimento que se obtém através da aprendizagem (formal ou tradicional, digo eu) que se liga ao saber fazer.

Reflicta-se sobre o papel das escolas, da família, dos pais, das empresas, dos governos.

Estamos hoje, sem dúvida, mais conhecedores. A informação e o conhecimento estão e continuarão a estar cada vez mais acessíveis.

Mas estaremos mais sábios? Ou pelo menos a caminhar nesse sentido?

Este é um espectro a que devemos estar mais atentos, que deve estar “mais à mão”: Sabedoria vs. Conhecimento.